Thursday, October 26, 2006

Do amor platonico




Simples assim. Sou muito dada aos amores platonicos. Amo ferozmente.
Professores entao, ja amei muitos, pobres coitados, diziam de mim uma aluna quieta, nada sabiam onde estava a minha imaginacao.

Amei um professor de filosofia no ginasio que tinha um rosto cheio de espinhas e adorava Samuel Beckett, amei tambem meu professor de natacao e jurava que ele tambem me amava. Loucamente.
E amei 'visceralmente' meu querido Steve Woodham, meu professor lindo, que quando falava o dente balancava, que tinha os sapatos salpicados de tinta, que fazia as aulas pesadas de Social Policy parecerem conversa de bar. Que um dia eu tive a ideia genial de dar uma barra do chocolate Galaxy, pra depois notar que ele comecou a me olhar diferente e so depois reparar que no comercial desse chocolate a mulher na banheira fazia um bocado de coisas safadinhas com o chocolate.
Ah! sempre amei demais.

E nesse longo verbo transitivo direto de Inglaterra me apaixonei por esse dai da foto. Jeremy Paxman, jornalista da BBC TWO. Pense um cerebro pensante, pense um cara que sabe o que faz. Aproveite e pense numa mulher que nao sabe o que escreve.
Bem, ocorre que hoje pela terceira vez eu o vi. A primeira vez o vi no corredor, um pouco distante, fiz cara de quem procurava algo so pra andar em sua direcao, a segunda vez ele abriu a porta pra mim, um gentleman, ele me ama, logo conclui. E hoje ele passou por mim feito um raio, mas eu notei um botao da camisa faltando e o cheiro de seu perfume caro. O que alias me pareceu bem incoerente.
E Foi-se. Algo me diz que nao nos veremos nunca mais.

Nada nao, vou s'imbora pro Recife, comer pirao pra depois virar um vegetal na rede de painho.
E se por acaso alguem ver chegar por la uma mulher carnuda, seios fartos, cochas firmes e grossas, sou eu nao. Eu sou aquela la atras, coisinha sem cor e sem graca, natureza morta, pernas finas e maos de homen, sobrevivendo as tragedias dos amores platonicos e reais. "E' que meu alegre coracao e' triste como um camelo " diz aquela cancao.

Sunday, October 22, 2006





Esse ai e' o Shaun (le-se Xon) do cartoon Wallace & Gromit.
Criatura danada, faz inferninho e depois fica vendo o circo pegar fogo.
Mas, o mais importante e' que essa ovelha nao segue rebanho.


E qualquer semelhanca e' apenas mera coincidencia.

Saturday, October 21, 2006

Mother and child

Tuesday, October 17, 2006

Valei-me Santa Rita dos Impossiveis! diria mainha se estivesse aqui.
Se deu que hoje de manha a campainha toca, era o homen de tirar a leitura do gas. No que ele entra e se depara com as montanhas de caixas quase ate o teto me pergunta se to de mundanca.
Uhmm, parece ne'?! respondo sorrindo.
O homen descaradamente comeca a investigar as caixas e fazer perguntas, o que pra um ser com mais de dez anos de Inglaterra como eu, pareceu um ato um tanto atrevido.
Dai vem o pior. Ele pergunta assim na maior se eu nao tenho uma televisao, um microondas, um geladeira,etc... que eu nao queira pra dar pra ele.
Digo que nao, e numa fracao de segundos me passam mil horrores pelas cabeca. Sim, eu so preciso de uma fracao de segundos pra pensar muita besteira.
Ele anda pra cozinha pra checar o medidor que fica embaixo da escada.
Eu nao ando pra lugar nenhum e comeco a ficar apavorada.
Ele termina o servico e nao parece estar com pressa. Pergunta sobre as caixas em cima da mesa.
Eu respondo. E num pensamento inteligente seguro a lanterninha de brinquedo dos Power Rangers do meu filho. Nunca se sabe, pode ser de alguma serventia. O homen e' baixinho, eu sou um pouco alta. Certa vantagem, penso ainda mais rapido.

Ele continua a averiguacao.
E eu ja vejo tudo.
Sai no Jornal Nacional no Brasil. "Brasileira encontrada morta no Reino Unido". E Meu amigos dizendo: "poxa, ela tava tao animada pra comecar uma vida nova, coitada". Outros diriam: " E' assim pra morrer basta estar vivo".
Se duvidasse eu seria comparada a Sharon Tate, quem sabe...
Lembro logo tambem que devo usar as unhas para que restos de sua pele fique encravados nela. E assim o predator seja reconhecido atraves de teste de DNA.

Dai calmamente o homen me explica que exporta coisas usadas pra Ruanda. E eu automaticamente ja simpatizo com ele.
Bem, quer dizer mais ou menos, meu senhor, porque na hora de salvar a propria pele nao ha Tutsis nem Hutus que me comovam. 'Demasiada humana' assim que sou.

E deixo de dramas.
Dou adeus ao homen muito educadamente, mas nao deixo de trancar bem a porta. Duas voltas na chave.
Faco um chazinho de camomila. To meio nervozinha, eu acho.

Friday, October 13, 2006

Das opcoes e falta de contentamento




Dia desses, e isso ja faz bastante tempo, eu fui numa dessas lanchonetes bem 'trendy' de Oxford street comprar um cafe, coisa simples...so um cafe com duas colheres de acucar, please! Mas eis que me olhando muito estranhamente o rapaz do outro lado do balcao me diz que cafe so nao tem. E segue pior que vendedor de telemarketing me metralhando com as opcoes. Cafe com chantilly, cafe com chocolate, cafe com mousse de nao sei o que, cafe com leite maltado...ah! o meu querer foi grandioso, e eu que pensava que so queria um cafezinho.

Lembro quando fui ter meu filho. As opcoes, quantas opcoes. Parto na agua? Em casa? Massagem manual? Eletrica? No cru? Epidurial? Gas? Voce quer gas? Poxa, e eu so queria que a cabeca do menino saisse logo.

Hoje meu condicionador de cabelos acabou, passo no supermercado em busca de um. A saga. Milhares de opcoes. Finito inumeravel. E com tantas opcoes eu sempre saio com a impressao de que nao fiz a melhor escolha. Pego um frasco. Primeiro vou pelo preco, depois pelo cheiro, depois vou em busca da palavra conditioner. Tarefa dificil. Vejamos o que eu trouxe comigo, diz assim na frente (ja nem ousei ler atras) : L'Oreal Paris Elvive NUTRI-REPAIR conditioner, Anti-Breakage, detangled, healthy, shiny hair. NEW dual action internal + external. Omega+ Ceramide. Up to 95% less breakage from brushing. Detangles & Replenishes lipids without heaviness repairs, smoothes & softens. DRY, DAMAGED or BRITTLE HAIR.
E eu so queria algo pra raizes oleosas e pontas secas, so isso.

O que eu acho engracado e' que mesmo com tantas opcoes nem por isso as pessoas parecem mais satisfeitas. Muito pelo contrario, me parecem cada vez mais exigentes. E uma certa agonia na alma me diz que tamos perdendo a serenidade. E isso e' muito triste. Mas, vai ver so sou eu, neurotica com esse mundo 'live fast, die young', vai ver isso e' so minha revolta com esse consumismo irresponsavel , nao sei...

Por sinal lembrei-me agora de uma amiga que tinha mais de cem pares de sapatos, ja querendo ser a propria Imelda Marcos, imagino.

Tem um programa aqui que eu adoro. E de tao inteligente o apresentador chega a ser super sexy, mas isso ja e' outro departamento... O programa se chama Bushcraft com Ray Mears, e' sobre sobrevivencia na selva, coisas desse tipo. Mas, o que me encanta mesmo e' como o cara consegue tirar tanto proveito de coisas tao simples. Contentamento e' isso. Tao facil e ainda tao dificil de se chegar la. Outro dia no meio de um quase longa explicacao sobre a vida na Siberia ele soltou uma frase magnifica. Inesperada e magnifica. E eu adoro gente que no meio de uma conversa solta essas frases lindas e inesperadas. Ele disse: " It is immensely liberating to have limited choices".
It is indeed, my dear, pensei.

O que como consequencia, porque eu sou uma pessoa de consequencias, me fez lembrar disso:

"Naqueles tempos, a vida em Sao Paulo era tranquila. Poderia ser ainda mais, nao fosse a invasao cada vez maior dos automoveis importados circulando pelas ruas da cidade.(...) Estridentes fonfons de buzinas, assustandos os distraidos, abriam passagem para alguns deslumbrados motoristas que, em suas desabaladas carreiras infrigiam as regras de transito, muitas vezes chegando ao abuso de alcancar mais de 20 quilometros a hora...Nao existia radio, e televisao, nem em sonhos. Nao se curtia som em aparelhos de alta fidelidade. Ouvia-se musica em gramofones de tromba e manivela. Havia tempo para tudo, ninguem se afobava, ninguem andava depressa. Nao se abreviavam com siglas os nomes completos das pessoas e das coisas em geral. Para que isso? Porque o uso de siglas? Podia-se dizer e ler tranquilamente tudo, por mais longo que fosse o nome, tudo por extenso_ sem criar equivocos_ e ainda sobrava tempo para enfase, se necessario fosse.
Os valores daqueles idos, comparados aos de hoje, no entanto, eram outros; as mais minimas coisas, os menores acontecimentos, tomavam corpo, adquiriam enorme importancia. Nossa vida simples era rica alegre e sadia. A imaginacao voando solta, transformando tudo em festa, nenhuma barreira a impedir meus sonhos, o riso aberto e franco. Os divertimentos, como ja disse, eram poucos, porem suficientes para encher o mundo."

Zelia Gattai, Anarquistas Gracas a Deus, pag. 23.




Ta ai, D. Janinne, porque se tu tivesse aqui eu nao ia mesmo te deixar dormir pra a gente ficar fofocando ate altas horas...
















Wednesday, October 04, 2006

Uma vez no metro, eu pensando minhas besteirinhas de sempre, sentada no fundo do vagao, escuto uma gritaria um pouco la na frente. Comeco a prestar atencao. E nao e' que era voz de brasileiros?! Pior, era sotaque de nordestino. Pior ainda...sotaque de recifense. Claro que fui pra perto ver do que se tratava. Era um casal, uma senhora e uma menina de uns cinco anos. E tava rolando o maoir cacete. Digo os tres adultos metendo a tapa na menina! Ja fiquei logo arretada. Pensei em dizer alguma coisa, mas julgando pela quantidade de cabelos nas pernas das mulheres achei melhor nao. Tambem me pareciam evangelicos, e eu tenho muito medo dos religiosos. Depois (e esse foi o maior motivo) se eu dissesse que eles poderiam entrar numa encrenca batendo em crianca por aqui, eles iam bater somente em casa, no escondido, e ai, pensei, pode ser bem mais perigoso...melhor que alguem os pegue e os oriente, calculei.

Fiquei triste, nao e' todo dia que voce esbarra num recifense por aqui. Julgando pelas aparencias, me pareciam pessoas bastante humildes do Recife. Me lembrei de uma paulistana que conheci que veio pra aqui trazida pela igreja, que dividia a casa com outros 'centos' brasileiros e que dormia embaixo da mesa de uma cozinha, pra sobrar dinheiro pra mandar pra familia no Brasil, e claro, pra pagar o dizimo na igreja. De doer o coracao. Mao-de-obra barata quase escrava, que ta aqui contribuindo pro bolo da economia do pais mas nunca e' chamado pra receber um pedaco da fatia. Mesma estoria de brasileiro, so um pouco diferente.

Outro dia botaram um panfleto pela letterbox. The Signs, era o nome do encontro. A igreja universal do reino de deus convidando para uma reuniao com o bispo Edir Macedo. Detalhe: num estadio de futebol imenso que tem aqui. Parece que o homen cura tudo. Falta de amor, de dinheiro, calvice, olhado, drogas, pneu furado, problemas com a imigracao e por ai vai...
Sem falar que a criatura comprou uma casa de shows enorme que tem aqui e transformou num templo.
Que raiva!
Raiva? Edir Macedo tambem cura, penso.


...

Ainda sobre metro.
Vejamos o meu caso, eu por exemplo, tenho uma relacao amor-odio com o metro daqui. Amor de ver tanta gente diferente e de ter a certeza que o trem das 7:21 vai chegar as 7:21, isso se nenhum islamo-facista decidir explodir tudo e acabar com a festa da vida...
E odio de nao poder reparar muito nas pessoas sem correr o risco de levar um fora, e odio mais ainda quando no verao as pessoas acham que nao precisam tomar mais banho do que no inverno.
Dizendo isso lembrei-me que outro dia vi um poema na parede do metro , tao verdadeiro...logo eu que leio poema como quem reza, vi minha alma em exaltacao quando o li isso:
Ai vai pros 9 leitores desse blog o que na minha opiniao e' a descricao perfeita do metro:

Underground

Proud readers hide behind tall newspapers
The young are all arms and legs
knackered by youth
Tourist sit bolt upright
trusting in nothing
Only the drunk and the crazy
aspire to converse
Only the poet
peruses his poem among the adverts
Only the elderly person observes the request that the seat be offered to an elderly person.

D.J. Enright


Wednesday, September 27, 2006

Perdoai-me meu pai.

Painho trabalhava na Rua Velha, no centro do Recife. As vezes eu ia com mainha busca-lo de carro, adorava ver as luzes da cidade. Me fascinava tambem ver as prostitutas da Rua Velha, seus seios flacidos, seus olhares de resignacao, suas roupas sempre um numero menor do que deveria.
E sobre elas painho sempre me dizia: "nao critique, nunca critique, voce nao sabe da vida delas..."
Pois entao eu nao as critico, ja que nao tenho nenhum problema de ordem moral contra elas.
Mas, de resto, sou horrivel. Sempre criticando e tirando minhas rapidas conclusoes erradas. Perdoai-me meu pai.

Painho sempre foi assim, presenca marcante, figura complicada, nunca teve coragem de explorar as suas proprias cavernas. A la Paul Sartre, ama a humanidade mas odeia seu vizinho.

Painho nasceu em Belo Jardim, sertao de Pernambuco. Da sua infancia e adolescencia diz que so se lembra de uma coisa...fome, muita fome. De uma dor constante de fome e uma vontade de nao mais querer se ser. Ah! e tambem se lembra de doenca do juizo. Disse ele que naquela epoca muita gente ficava doente do juizo, sua propria irma ficou doente do juizo e desapareceu.
E essa foi a parte da sua historia que eu nunca entendi.

Ate um dia muitos e muitos anos depois. Sim, porque a vida nao dar respostas rapidas. Um dia eu fui numa festa, no interior da Inglaterra, ali onde o vento faz a curva, e conheci um alemao gente boa, apesar de so querer dancar imitando uma borboleta, e que fez parte do doutorado la em Belo Jardim e entao ele me explicou da tal doenca do juizo. Ocorre que devido a malnutricao na infancia o sistema neurologico da crianca nao se desenvolve direito, dai as sequelas, depressao, loucura, etc...
E eu fiquei pensando o quanto longe tive que ir, o tanto que tive que andar, pra entender um pouco essa criatura doida que sempre foi meu pai.

Meio incapaz de ser logico, nao podia ser um perfeito exemplo, mas ora bolas, quem e'? Mas, ele me deu livros, muitos, muitos deles. E dali... eu vi um mundo inteiro.

Acontece que hoje a ficha caiu e eu percebi que daqui a um pouco mais de trinta dias eu vou estar com ele, com suas loucuras, ouvindo suas poesias e sua modestia de que superou Fernando Pessoa...
Vixe-maria, e ainda tem mainha! tao boa, meu deus, voce pergunta como ela ta, ela nao responde mas pergunta se voce quer um cafezinho e volta com um prato de macaxeira com charque. Eita, 'dupla de dois'.

Pois, em verdade vos digo. To aqui tendo ideias mirabolantes pra escapar das suas loucuras. Perdoai-me meu pai. Muitas ideias. Mirabolantes.



"They fuck you up your mum and dad

They may not mean to but they do
They fill you up with the faults they had
And add some extra just for you."

Philip Larkin